domingo, 14 de abril de 2013

Si us plau, parla´m en català!




Conheci-te lá, onde dizem que a luz é mais branca. Lá, onde o Tejo serve de pista aos cacilheiros e onde os guarda-freios nos levam a ver as estrelas. Lá, aí onde estás, é sempre sexta-feira.
Tenho saudades. Sempre tive. Não é de agora! Saudades tuas! Da minha mãe! Do Porto! Da escola secundária!
Sabes, tenho sempre saudades de alguma coisa! É a minha heroína!
 Como tu!

Quando estou à tua beira, ou ao pé de ti, o meu coração é  foguetes de S. João. Daqueles que são lançados à meia-noite e fazem pum-pum-pum sem parar. A cidade brilha toda, sabes!

Quando me vou embora de ti sou domingo à noite. Está sempre frio . Fico com frieiras e com olheiras!
Expiro para o vidro do comboio e escrevo o teu nome, mas só me vejo a mim, órfão de ti.

Tu acreditas em Jesus Cristo. Eu acredito em ti. E é assim que está bem.

Dizes que eu tenho sotaque. Que falo rápido. Que sou como o teu pai.

Não te digo nada. Fico a olhar-te só. Devia benzer-me sempre que te olho. É o que vou fazer. Repara: Em nome do Pai, do Espírito Santo, ámen e do filho!

 Desculpa, a sequência não é esta mas não importa! Deus, se existir, há-de perdoar-me. Para já perdoo-lhe eu a ele, por te ter feito mal aqui e ali. E acolá.

Mostras-me, com a tua lanterna, a grandeza que há em ser simples! És tão pequenina, és tão grande!

Outra coisa: quando me deito ao teu lado, no quentinho, entro, com a minha mala de porão no aeroporto, tomo um galão e descolo. “Senhores passageiros, bem-vindos a bordo.  Em Breve chegaremos a Mombassa, a Nampula, a Viena, a Barcelona…”

Fecho os olhos com força e vou-nos buscar em frente à Sagrada Família. Depois, com os olhos ainda mais fechados, vejo-te a subir o Park Guell  como quem faz o caminho de Santiago. Falta-te o cajado, sobra-te vida.

Ouço-te dizer que temos de ir a Tibidabo, sem te escutar. Escorrem-te pingas de suor. Não tens maquiagem na cara. Muito menos no coração.

Abro os olhos. Estamos com os pés mergulhados no Mediterrâneo. Dizes que os meus são feios. Pergunto-te se já olhaste bem para os teus.

Digo que te amo, em catalão, na Avenida Diagonal. Foges, a rir, com chinelos de meter o dedo, Diagonal abaixo. Só dizes que gostas de mim quando tropeças e te apanho numa viela do Bairro Gótico, ao pé da Plaça del Rei.

Beijas-me. A tua boca não engana! Gostas de mim.

Peço a um senhor, em castelhano, para nos tirar uma fotografia. Ele diz “Si us plau, parla´m en català”

Peço desculpa. Ele tira-nos na mesma. Ficas linda. Eu fico com barbela.

Fumo um cigarro, a seguir. Depois outro. Dizes-me que eu devo ter uns pulmões pretos maravilhosos. Aprecio a tua ironia, mas estou cansado para a devolver.

Sentámo-nos no meio das Ramblas.  Já não vamos para novos. Ficamos a pensar na vida.

Conheci-te quando tinha de ser. Tarde. Ou se calhar não.

Hoje tenho cabelos brancos. Tu dizes que tens rugas ao pé dos olhos. Pés de galinha, não é?

Não fomos adolescentes juntos. Não partilhámos o 25 de abril um do outro! Não me viste de espinhas na ponta do nariz, não me viste de cabelo grande nem de calças vinte e cinco números acima do número. Nunca viste a minha barba à Guevara, muito mal semeada! Não ouviste comigo os discos do Zeca, nem dançámos, no roço, um slow qualquer, no baile de finalistas.

Antes de ti esguichei vida também, sabes!

Houve outros passageiros que começaram a viagem comigo. Gente boa, com narrativas bonitas. Foram saindo porque tínhamos destinos diferentes. Só isso! Eu queria ir para Y, eles para X.  

Apanhei-te a meio. Travei a fundo quando te vi. Tinhas o polegar estendido. Além disso, tinhas fantasmas nos olhos verdes. Dei-te boleia. Aliás, demo-nos boleia um ao outro.
De costas direitas, apesar da cifose, ofereço-te tudo o que tenho. Que é nada, portanto!

Rectifico.

Tenho adrenalina. Um ror dela  É difícil de explicar e eu não sou capaz de fazer artesanato com as palavras. Falta-me talento.
Vou dar-te um exemplo.

Lembras-te quando disse que te ouvi dizer que querias ir a Tibidabo, sem te ter escutado?
Só ouvi, amor! E de raspão!
Porque queria abraçar-te. Com força. Com muita força. Enquanto fechava os olhos.

Amo-te.

Ficas feliz. A seguir dizes “si us plau, parla´m en català!”.

 


2 comentários:

Tubal Gonçalves disse...

Caro João,
Sou o João, avô da sua aluna do 2B, aquela que, como outros alunos, o admira tanto que eu não pude deixar de lhe afirmar o grande prazer que estava a ter em finalmente conhecer o GRANDE professor João, que de quem ela tanto fala.
Quando nos separámos ela disse-me: - Avô tens de comprar o livro do professor João!
Quando lhe perguntei como se chamava o livro ela disse-me "Pés Bem Assentes na Lua" e eu disse-lhe que sim.
Agora que vim à internet procurar o livro com aquele nome de um professor João, deparo-me com o seu blogue e li este primeiro texto.
Permita-me que lhe dê os parabéns, pois é um texto literário muito belo e bem escrito.
Não deixarei de continuar a lê-lo e, se o livro vier a existir, gostaria de saber para o poder adquirir, pois, por esta pequena amostra, tenho a certeza que será uma obra a não perder.
Um grande abraço do avô João

João Nogueira disse...

Olá, João,

Muito obrigado. Pela simpatia e pelo cuidado do comentário que deixou aqui e que me deixou muito feliz. A Inês é uma menina maravilhosa. Parabéns pelas raízes fortes e bonitas que lhe estão a dar. É um privilégio ser professor da Inês. Palavra que sim.

Um grande abraço para si. Tive muito gosto em conhecê-lo.