domingo, 22 de maio de 2011

Voa...


Houvesse uma ponta por onde pegar e eu pegava...


Fiz um tratado de paz com o meu coração. Apertámos a mão e, com treze nós na garganta, fomos à nossa vida. A que julgávamos ter…

Enquanto sarrabiscava o documento, lembrei-me de mim. Do meu eu de ontem.

A pista de aviação era minha. Toda minha. Corria, corria, corria, abria os bracitos e lá ia eu…e tu! Nas minhas asas, a rir e a rezar para que o vento não te "bufasse" o cabelo para os olhos verdes...

Hoje, cabeça no ar, já não sei do coração. Perdi-o.

Pensar em ti, hoje, não me faz bem. Fico com as tensões altas...

Penso em ti um bocadinho e faço-me uma contra-ordenação. Grave.

Penso em ti mais do que um bocadinho e piso todas as linhas contínuas do coração que, feito num oitocentos, descubro. Piso-as como quem apaga um cigarro…

Eu não era para ser. Sou, porque Deus, ou coisa que o valha, são imaturos. Os dois.

Bonito serviço, menino Deus...

Sabes, Beatriz, o meu coração veio com defeito. Para o bem e para o mal.

Precisava de ar. Não sei se de ar rarefeito ou comprimido, porque nunca fui muito bom a Inglês, mas precisava de ar, meu amor. E só tu, com as tuas bochechas gordinhas, sabias como o encher…

Fomos embora um do outro. Que maçada!

Disse-o há uns duzentos e dezassete caracteres atrás. Houvesse uma ponta por onde pegar e eu pegava. Juro. Por Deus. Ou por coisa que o valha.

Um dia fiz-te um barquinho de papel. Um bote, aliás. Também nunca fui muito bom a trabalhos manuais.

Meti-o no bolso do teu quispo, à socapa, e fui-me embora. Dizia assim:

Crida Bea,


Gosto do teu xeirinho. Gosto da bluza azul clarinha que trases oje ( ou rôcha, ainda não çei as cores) e da bluza de folhinhos que trousseste ontem. Gosto dos teus demtes de laite branquinhos e até gosto daquele que está a abanar. Gosto que não tenhas brincos. Gosto do teu narisinho peqenino sempre limpinho. Gosto cuando falas comigo e a tua bôca cheira a paxta dos demtes.É fresquinho.


Gosto da tua letra redondinha ( apezar de teres que melhorar no quê de quaquá maiúsculo). Gosto de te oubir ler aquelas palavras difisseis com um ror de sílabas. Sabes, gosto muito de ti e de estar á tua beira no recreio a comer sereijas. Obrigado por ontem me teres dado metade do teu pão com jeleia.


Tinha sete anos, Beatriz. E, mesmo com o quarteirão e meio de erros ortográficos, estas foram as melhores linhas da minha vida.

Neste balancé que é a vida, fui empurrado para o chão quando fiquei sem ti. Estou todo arranhado, meu amor. Puseram-me mercúrio no cotovelo e nos joelhos, mas não é aí que me dói!

Beatriz, que és actriz, que me fizeste feliz, que me fizeste infeliz, não sou mais o teu par neste guião. Sou ímpar, agora…

Morri na tua peça. Essa é que é essa…

A vida desceu-me as cortinas e o teatro está vazio. E escuro!

Mete medo, amor!

O futuro pôs-se a andar. O palerma!

Agora, nas noites de trovoada, durmo agarrado ao pretérito perfeito. Ele não me foge. Algemei-o...

Os mundos e fundos que trocámos, trocaram-nos as voltas. Meu Amor, eles mandaram-me procurar-te na linha do Equador, essa linha imaginária que divide o mundo em dois…

Estou fora de combate. Estou no chão. A imagem é turva e ouço, ao longe, o árbitro aos berros…
Cinco, quatro, três, dois, um….
Quero muito, mas não tenho força para me levantar. Durante a contagem decrescente, lembro-me de ti a beberes do meu copo, ouço-te a rir, ouço-te a chorar, vejo-te nua, vejo o teu ventre, inspiro o teu cheiro, guardo-o e recuso-me a expirá-lo, lembro-me de ti a dizer adeus…

Zeeero.

Ateu que sou, pedi a Deus para me dar uma mãozinha.

Estava a dormir.

Chato, insisti no apelo.

Virou-se para o outro lado.

Apesar de todo o respeito pelo sono divino, desesperado, fiz-lhe cócegas nas axilas. Primeiro desfez-se a rir. Depois gabou-me a perspicácia por lhe ter descoberto o ponto fraco.

A seguir, com muito cuidado nas palavras que escolhia, disse-me para te deixar ir…


Amo-te desde os dinossauros, desde o paleolítico, amo-te e ainda não se dizia “amo-te” . Amo-te desde o sensório motor, da lalação e do biberão. Desde a chupeta, minha Julieta…

Amo-te mal me acenderam o semáforo verde e eu saí, disparado, placenta abaixo…

Mas…

Eu percebi…

Voa, amor.

A tua Primavera não está em mim.

1 comentário:

Ana disse...

Adoro a tua maneira de escrever. Sem dúvida FANTÁSTICA!