domingo, 1 de agosto de 2010

CATARINA



Bebias café sempre da mesma forma.
Agarravas a chávena com as duas mãos e sopravas antes de cada gole. Sopravas, não. Bufavas.
Fumavas os teus cigarrinhos fininhos e eu agradecia a um Deus em que não acredito por te ver fumar.
Fumar mata. Ver-te fumar matava-me.

Não olhavas para ninguém. Pagavas e ias à tua vida.

Eras a mulher mais bonita do Porto. Sem clichés, por favor. Tudo é discutível, bem sei.
Tu, não.
Confundias-te com a cidade.
Gémeas verdadeiras. Monozigóticas…Daquelas que vestem as mesmas roupas e têm, ambas, 37 sardas na bochecha direita.
Eras a personificação da Invicta…da parte boa e da parte má.

Sabes, Catarina, quando ganhei coragem para te pedir para te tirar uma fotografia, nunca pensei que aceitasses. Ficava contente com um “não”. Por mais seco que fosse. Podia até ser um “não” déspota. Uma reacção tua bastava-me. O meu amor-próprio não era prioridade.
Tu, sim. Vinhas da direita.

Quando disseste que sim, quis que tivesses dito não.
Engasguei-me.
Desejei ter morrido quando, para fazer conversa, recorri ao tempo. Esse desbloqueador de conversa da loja dos trezentos.

Enquanto fazia de meteorologista , pedia que me dessem um tiro na rótula. O meu sonho, naqueles segundos, era partir o metatarso. Ao menos saía dali.
Quando te falava de aguaceiros, de céus pouco nublados e de tufões nas zonas altas, riste-te para mim. Melhor, riste-te de mim.

Fizeste pose.
Foi a melhor forma de me mandares calar.
Com a mão na anca, diagonalizaste o teu tronco de Afrodite e, vaidosa, fizeste beicinho para a fotografia. Muito vaidosa, ressalvo.

Fiz parágrafo mas não devia. Faltava superlativizar o vaidosa. Tu eras impressionantemente vaidosa. E é impressionante…nunca eras fútil.

Convidaste-me para um café. Sim, tu convidaste-me.
Gaguejei. Engoli trinta e sete quilolitros de saliva…
A seguir ganhei coragem e disse-te que não.
Agradecia o convite, mas via-me forçado a recusar porque a cafeína fazia-me mal à hérnia.
Franziste o sobrolho…Não cedi.
Foi a tua vez de gaguejar… Mantive o ar sério e a tua auto-estima foi para as urtigas.
Por momentos pareceste-me humana.

Inverti a ordem dos factores. Fiquei por cima…
A seguir, aceitei…

Enquanto te ouvia, mostrava-te as minhas mãos vazias.
Com elas em concha, pedia-te, com os olhos, que gostasses de mim...

Sabes, tinha 34 anos e não me sentia assim há 34 anos e 4 meses. Era uma espécie de tranquilidade eufórica.
Lembro-me que só quando flutuava no líquido amniótico da minha mãezinha me tinha sentido assim…
Em paz e desassossego!

Tu desafiavas as probabilidades. Não tinhas um sorriso bonito, porque tu não tinhas um sorriso.
Tinhas infinitos. E ainda mais outro… Todos me causavam apneia.


Adormeceste a ouvir o que saía das cordas vocais do Percy Sledge, comigo ao volante.
Era noite e eu ziguezaguiava e calcava linhas contínuas para te poder olhar…
No rádio, o Percy, cantava, em "repeat",

When a man loves a woman
Can't keep his mind on nothing else
He'll trade the world
For the good thing he's found
If she's bad he can't see it
She can do no wrong
Turn his back on his best friend
If he put her down


E eu via-te dormir, Catarina Bailarina...

...

Não ouvíamos a mesma canção. Antes de te conhecer já o sabia…Partiste.
Foste à tua vida…

Eu fui e tu foste Si. Estávamos longe, separados por um hiato de agudos desafinados que nos zurziam os tímpanos…

Arrependes-te?

Eu, não…

No nosso portefólio, guardo tudo. Abraços num lençol encorrilhado, interjeições, feições, e o teu ventre…
Os teus seios suados a recuperar fôlego na minha pele, os meus lábios a gritar pelos teus, e o teu ventre…
Francisco se fosse menino, Inês se fosse menina.
E o teu ventre…

Vivemos tudo à pressa. Os nossos corações, enquanto bateram, foram galopes de um cavalo louco…

O há pouco quem, no depressa e bem, fomos nós, meu bem…

Só tivemos Presente, porque o Futuro não existe... é uma invenção de um engenheiro trapalhão…
O Futuro, sem ser tempo algum, é tempo que se perde no Presente.

Em nós, houve Hoje.

Arrependes-te?

Eu, não...

Saravá, Catarina…

3 comentários:

divagarde disse...

Há uma hora de partir?... avant l'heure c'est pas l'heure, après l'heure c'est plus l'heure [Piaf dixit]

Os amores que não se esquecem são aqueles que morrem como sempre viveram... cheios de vida.

João Nogueira disse...

Gosto especialmente da última frase. Sintetiza o amor das personagens...Frenético, transpirado, VIVIDO...e finito.
Beijinho, Divagarde.

divagarde disse...

João,
recomendo-lhe um livro que me foi oferecido há pouco e com que me ando a deleitar. Lendo o seu texto, vai gostar tenho a certeza,

O Museu da Inocência, Orhan Pamuk

beijo também para si e boas férias