domingo, 7 de março de 2010

"Eg elska þig, muito"



Falar não basta!

Falar é uma emissão de vocábulos, mesmo que as gramáticas o desmintam e com um ar paternal nos digam que é um processo ” incomensuravelmente” mais complicado… (a gramática ama, até à pontinha dos pés, palavras e definições “incomensuravelmente” complicadas e sente o coração a bater a trezentos e dezassete mil à hora quando cruza olhares com orações de treze complementos, quatro predicativos do sujeito e um vocativo que, bem vistas as coisas, não passa de uma interjeição…)

Falar é uma treta…é uma orquestração das cordas vocais com o conluio da língua e da boca…O coração, sujeito honesto e dado a emoções, fica de fora…porque “falar” tem hálito a sandes de fígado…

Em tempos, quando vivia no Michigan, por volta da década de 70, conheci uma mulher.

Peço desculpa pelo parágrafo!

Conhecer uma mulher, por si só, não vai prender o leitor à prosa…Boa estratégia para o “algemar” é reformular…vamos a isso, então

Em tempos, quando vivia no Michigan, por volta da década de 70, conheci uma Mulher.

Falava pelos cotovelos…não literalmente, é claro...mas falava, de facto, pelos cotovelos! Era bonita… sem ser deslumbrante! Era inteligente… sem ser brilhante! Era simpática, sem ser como eu, que ponho dois pacotes de açúcar, e um bocadinho do terceiro, em cada fonema sempre que digo “Bom dia”…

Essa mulher era estranha. Não é que fosse estranha por falta de perspectivismo cultural da minha parte. Era mesmo estranha.
Amei-a como um louco. Melhor, amei-a como um lúcido. Amei-a, prontos… (escusa de dizer que preciso de uma gramática, eu sei que não se diz “prontos”)
Se soubesse fazer amor com as palavras, juro que lhe punha à “frente da vista” um kamasutra de metáforas, em que os verbos agarrariam os substantivos pelas ancas e os adjectivos ficavam, deitadinhos, impávidos e serenos, à espera que os advérbios fizessem o "trabalhinho" todo…

Não sei “pintar” as palavras de cor-de-rosa! Não, não é por ser daltónico…Poder-lhe ia dizer leitor, por exemplo, frases do tipo…”Juro-te amor, um dia havemos de esventrar as calles de la habana num Cadillac antigo, só os dois! Ou, melhor ainda, “ Contigo, sempre contigo, porque ninguém ama como nós, e não me venham falar em descentração, porque ninguém ama MESMO como nós”, mas isso não era pintar as palavras de cor-de-rosa…isso era adorno! Vaidade literária daqueles que instrumentalizam uma “coisa” que vem, mas não devia vir, no dicionário…Ou nos livros. O Amor!
O Amor, como aquele que eu tive ,barra tenho, por essa Mulher, põe o dedo do meio em riste , diz palavras com caveiras e aplica "kekomis" nos abdominais de quem o quer "picotar" com caneta e papel.

Essa Mulher, como era do Michigan”, dizia-me com frequência “ babe, we have to talk, not just speak”… tirando o aparte do “babe”, que, confesso, nunca gostei, o que dizia fazia todo o sentido…

Essa mulher, perdão, Mulher, não sabia grande coisa de Shakespeare…para falar a verdade, não sabia nada do homem... possivelmente nunca terá ouvido falar da luta apaixonante dos aborígenes australianos, nem ouvido a “Martha” do Tom Waitts…e, no entanto, sabia muito mais do que eu... um déspota! Sim, um déspota ! É lamentável não poder substituir aquele “o” da segunda sílaba por um “u”…assentava-me melhor, ficava mais justinho ao corpo!

Eu só “falava” com ela! E o Amor, como aquele que tinha, barra tenho, por Ela, dava gritos mudos há meses para que eu parasse com “essa merda” …sim leitor, gritos mudos, que diziam para eu parar com “essa merda”! Quer que repita?

O meu amor por ela é mal-educado, não faz mal! Amor que é Amor, não passa dum “fedelho” de mochila às costas, contente da vida, que assobia sem razão e a quem é permitido dizer palavrões…mas daquela vez, o Amor foi bem mais maduro que eu.

Sinto tanto a falta dela…Eu quero lá saber que ela nunca tenha lido o “Hamlet”…

Disse, há mil e doze caracteres atrás, que o amor não devia vir nos livros…Mas estar a escrever para ti, Mulher do Michigan, faz-me bem! Alivia-me a tensão arterial!

Se eu fosse incoerente, voltava a dizer que ninguém ama como nós…que havemos, mesmo, de esventrar (ou estripar, já não me lembro) as calles de la Habana num Cadillac antigo…Apetece-me tanto dizer, môr..( môr é o equivalente a “babe”…é uma palavra com esquizofrenia catatónica, mas toda a gente a usa)

Mulher do Michigan, que falas mal inglês, Amo-te e tenho pena de ser assim!
Um lorpa, um “nerd” ( narde, como dirias) que não soube conduzir o nosso barquinho azul-clarinho até ao destino! Enjoaste, pois claro! Quando as ondas eram feias e más para nós, tinha sempre problemas na embraiagem.
Desculpa a minha iliteracia…não percebi que tinha de te pôr uma manta quentinha nas costas quando te abraçavas a ti, sozinha, a tremer e a tilintar os dentes…Nunca te soube ler, Amor… “Empancava” sempre no primeiro caso de leitura que aparecia!
As gramáticas que me desculpem, sou um “cachopo”. Foram um pretexto. A culpa dorme, escova os dentes e janta aqui! Ela mora em mim.

PS: Amo-te

7 comentários:

divagarde disse...

Todavia, por alguma razão o ser humano se distingue sendo dotado do dom da fala. Ainda que o silêncio seja uma mais valia, deveriamos usar mais a palavra.

Um beijo [não de Michigan mas de Nova Iorque :)]

Maria João disse...

:) Lá que me deixei prender ao texto,deixei!E fiquei com imensa vontade de conhecer essa mulher... perdão, Mulher do Michigan que fala mal inglês e tem memória curta.
Abraço!

João Nogueira disse...

Grande Mary Jane, obrigadinho :)

Ana disse...

Olá João

Há várias coisas que gostaria de fazer bem e simplesmente não faço: cantar, pintar e escrever.
Não posso evitar uma pontada de inveja sempre que leio um texto teu... Mas acho que isso não fará de mim uma má pessoa, ou fará?!

Parabéns pela forma como tratas as palavras: como carinho e à vontade como se fossem amigas intimas...

Apesar de ser seguidora dos teus posts, nunca me inspirei para te deixar um comentário. No entanto acho que são merecidos muitos elogios aos teus textos...

Parabéns!

Ana Paiva

João Nogueira disse...

Ana, MUUUUUITO obrigado....
Obrigado por gostares daquilo que escrevo, fico mesmo "contentaço"...

Não posso evitar uma pontinha de inveja sempre que vejo uma aula tua...
mas isso não faz de mim uma pessoa má, ou faz? :) :)

És uma extraordinária professora e admiro-te pa caraças...como te disse noutro dia...És vertical

beijinho

Daritax disse...

Sabes o que faço quando me sinto vazia? Venho aqui e leio o que escreves. Acho que já te disse isso mas se o fiz repito: estarei à porta da fnac de santa catarina as 7h da manhã no dia do lançamento do teu primeiro livro. Tenho orgulho de puder dizer a quem quer que seja que convivi contigo quatro anos da minha vida universitária e que me ensinaste que ser daltónico é apenas ver o mundo com outras cores!!!
Grande orelhas...
Beijo da tua sempre amiga Aldrabona...;p

João Nogueira disse...

Hey Aldara,

Obrigado...a sério!

Beijinhos e tudo de bom para ti