domingo, 25 de janeiro de 2009

...EXERCÍCIO DE DESAMBIGUAÇÃO DO CONCEITO DE FELICIDADE...


Escrever a história da minha vida pode ser um acto narcísico…imaginem se eu escrevesse uma livro autobiográfico aos 25 anos…Um bocadinho petulante, não?
…Vou, então escrever, 1/3 da história da minha vida… (presumindo que irei viver até aos 75)
Houve fases desta vida em que eu pensei que o meu maior problema fosse pensar…pensar e sonhar!! Andaram-me a enganar todos estes anos, pensava!! E eu tinha a certeza que se não sonhasse seria mais feliz…Nunca devia ter duvidado da sabedoria popular e dos registos etnográficos…”Quanto mais alto é o voo, maior é a queda”…”Sai desse mundo da lua”…Mas duvidei…Ousei sonhar…Nessa altura, quem me falou em juízo crítico merecia ter um Fidel ou um Chavez como Pai! Eu sou daltónico, mas tudo o que sempre não quis, foi fazer parte do cinzentismo generalizado…Desse fado, que nos assenta como uma luva!
Eu sempre soube para onde não queria ir!!! O problema nunca esteve aí…o problema foi sempre de fundo, estrutural….eu nunca soube muito bem para onde queria ir!(Deixemos os eufemismos…eu não fazia ideia para onde queria ir!!) E, convenhamos, esta dicotomia não matava, mas moía…
Dizem-me que sobrevivi ao complexo de Édipo, e que passei incólume pelos estádios de desenvolvimento piagetianos…aliás, disseram-me que o meu pré operatório chegou a ter momentos brilhantes…chegaram-me, inclusive, a vender a ideia que eu era um excelente socializador…Mas…caríssima Psicologia, alguma coisa te escapou…Não quero ser pretensioso nem egocêntrico …mas, tempos houve, onde eu justificava o divã……

O conflito desilusão/esperança chegou a ser cómico e ninguém melhor que eu compreendia o Fernando Pessoa…aliás, eu cheguei a pensar que era uma espécie de alelo do Fernando…Mas…a certa altura da minha vida eu conheci o Ary dos Santos…e ele disse-me que podia ser tudo…menos poeta castrado!!!conheci o cesariny ...conheci o Jorge Amado, que me falou do gato malhado e da andorinha sinhá e chamou-me cinzento…Eu, que não conheço o cinzento, fiquei sem perceber se aquilo era elogio, defeito, ou mero exercício de retórica…Ele disse-me que era defeito…dos grandes!! Disse-me ainda que acreditava que podia mudar o mundo…e eu, apesar de saber que o Jorge brincava aos verbos, aos adjectivos, às onomatopeias e às isotopias, como ninguém, nunca pensei que ele me estivesse a iludir… …É que o Jorge falava com os olhos…)

Eu conheci a Natália Correia…Conheci-a numa tarde de Sporting-Benfica em que Lisboa era toda para nós …Corremos de mãos dadas pelo Rossio, dançámos para o D. Pedro IV e só parámos debaixo do aconchego do arco da Rua Augusta…Aí a Natália passou a mão pela minha barba e numa terminologia só dela falou-me das almas censuradas e de liberdade…Lisboa nunca me parecera tão branca…!!

Depois, numa quinta-feira de chuva, em Paris, encontrei o Jean Paul Sartre, que me convidou para um café no Deux Magots, em Monmartre, e entre um croissant e uma baforada no charuto, disse-me que nunca se é Homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se estaria disposto a morrer…O Pessoa que me desculpe mas esta metodologia de percepção da vida agradou-me mais…Ainda por cima numa altura em que tinha o Sena como pano de fundo…

Hoje continuo a ser confuso…Já não tenho, sequer, ilusões de deixar de o ser...mas…dizem que agora sou cinzento e cor de rosa…Continuo sem perceber se é bom ou não…Se bem que desconfio sempre do cor de rosa…!!
Tem piada…Ainda há quem compare a personalidade a um gesso inflexível…eu lembro-me tão bem de descer a Ribeira e não pensar em nada…e hoje, que a volto a descer, a mesma ribeira, penso alegremente no futuro…Pois, Deus, se existir, há-de permitir que aquilo que não existe seja fortemente iluminado…Tenho impressão que se os meus dois eus se cruzassem, nessa mesma rua, iam olhar-se de forma indiferente…Nem sequer se iam sentir à vontade para dizer bom dia…não iam ter empatia para tal!! O meu eu de hoje não procura arquitecturas de fuga e a vida, para ele, deixou de ser um trapézio sem rede…

Não estou mais maduro…nem quero…Faço questão de preservar estes laivos de imaturidade genuína…estou é mais feliz!! Bem Mais!!! Para isso, contribuíram o Ary dos Santos, o Jorge Amado,a Natália e o Sartre, mas…quem contribui mesmo, foi a Maria. A Minha Maria! No momento em que a conheci, nem sequer reparei nos seus lábios de silêncio, nas mãos de bailarina…ou nos 30 mil cavalos que lhe galopavam no peito… lembrei-me foi do Sartre…

Foi ela que me tirou do limbo e impediu que eu fosse normal! Por normal entenda-se obsoleto…estandardizado…e segundo o que dizem, cinzento……(não que ser “normal” seja assim tão mau…Mas, convenhamos… quem vive na ténue fronteira entre a desilusão e o sonho, tem, forçosamente de ter um incentivo extra)… E Hoje Maria, o meu ideal de felicidade, é estar contigo no quentinho, num dia de muito frio, de muita chuva…Hoje, bastas-me tu…e uma manta castanha, muito feia, mas muito quentinha!!! E, por favor, não me chamem redutor ou simplista! Nem me mandem questionar as minhas prioridades…Se o fizerem, eu juro que vos devolvo um sorriso condescendente de assumida superioridade emocional…Hoje, sei que enquanto houver ventos e mares a gente vai continuar,e contigo, sempre contigo, vou chegar onde quero e gozar bem a minha rota…Contigo, sempre contigo, quero ejacular vida…Contigo, e de certeza, para sempre contigo, por que ninguém ama como nós, e não me venham falar em descentração… porque ninguém ama mesmo como nós... vou escrever os outros 2 terços da minha história, com a vontade de quem não quer passar pela vida para ser um mero figurante….Até daqui a 50 anos…

2 comentários:

Sérginho disse...

Acho que te enganaste: 25 anos??? E os últimos 3?? E não foram nestes 3 que conheceste a tua "Maria"??? Já não percebo nada, também eu queria ter 25 anos novamente. Acredita, não mudava muito. Tudo o que fiz foi bem feito, por meios certos e fins errados...
Cada vez me surpreendes mais. Ainda no outro dia falava com umas pessoas e dizia: vocês têm que ler o blog do João!!
Promete-me uma coisa: quando quiseres publicar um livro de crónicas, fala comigo. :) Tou a brincar. Agora a sério, não sei bem se te descreveste da melhor forma. Antigamente, quando falava de ti dizia: o João é o português típico. Hoje fico a saber que afinal por dentro muita coisa era diferente: o português típico não sonha.
Graças a Deus, ou a mim, sempre sonhei e continuo a fazê-lo. Para quê?? Ainda não descobri, mas mesmo assim continuo a sonhar...

João Nogueira disse...

Não era suposto dar tanto nas vistas...lol
Ainda ocultei aspectos e menti na idade...mas fui facilmente apanhado! :)
Nunca fui o português tipico...and.."my head was/is a mess too"...
obrigado pelo teu contributo
abração...