sábado, 15 de maio de 2010

VIAGEM



Estou de mapa na mão.

Enganei-me. O Evereste não é aqui. O monhé que acabei de conhecer, disse-me, num híndi perfeito, que nem sequer é perto. Pelo menos foi o que percebi. O senhor tinha um sotaque estranho, devia de ser de Bombaim, fechava as vogais à chave. Agradeci-lhe, no entanto.

Não há forma de me encontrar. Quando parti, tinha três sonhos e treze milhões e doze pesadelos. Planeei tudo. Detalhe por detalhe. Sou muito organizado. Não havia esquina do Chade, cabana dos Massai,ou boulevard do Sul da Nigéria que não conhecesse. O caminho ia ser fácil. Canja, mesmo. O Evereste era já ali. Depois da rotunda virava à esquerda, seguia em frente e pronto. Difícil, só se fosse estacionar.
Tranquilo da vida, portanto...

A viagem não é o que se diz dela. Tem um feitio que "Deus me livre". É preciso conhecê-la. Cheira bem e tem um óptimo par de pernas. Irrefutável.
Mas a forma como apazigua a libido é estranha. Sádica, mesmo. Gosta de adicionar curvas escorregadias depois de rectas inofensivas, que não têm onde cair mortas.
Fantasia com STOPs, sentidos proibídos e estradas com um só sentido.

Estou, agora, em algum lugar, no meio de Cartum. Não estou perdido, leitor. Quem me dera estar perdido. Quem está perdido sabe para onde quer ir.

Faço uma pausa para chorar. Chorar faz-me bem. Significa que o pior já passou.
Sigo caminhando...

Menti-me e vou pensar se me perdoo. Detesto mentiras, fui muito bem-educado.
Acabei agora de pensar. Não me perdoo e vou transmitir-me isso, não tarda. Amanhã, se calhar, por volta das 6.

A viagem, percebo agora, vive em união de facto com o tempo. Uma união inconstitucional entre dois aldrabões.

Soube-te de cor. Soubeste-me tão bem. Se eu soubesse...
Vezes houve em que fomos a palma e a mão. Vezes houve em que inventámos vida onde ela não existia. Parímo-la. Eu e Tu.
Sabes, ser daltónico é poético. Toda a gente devia ser daltónica. É ver cor-de-laranja onde todos dizem que é preto.
E como nós "cordelaranjávamos" bem, não achas? Claro que achas, não há carga subjectiva que "borrate" as cores da nossa serigrafia. Sejam elas quais forem.

Disse-Te adeus, perdoa-me. Foi um lapso de linguagem. Gramaticalmente sou zero.
Aldrabei-nos aos dois. Não me orgulho da minha capacidade de persuasão.

Imagino-Te a rir, agora. Com os teus dentinhos imperfeitos, sempre branquinhos. Ris-te com os olhos, que engraçado! Olhos, claramente verdes. Ou castanhos?

Lembro-me de Ti a chorar e morro. Paz à minha alma. Era tão bom rapaz.

Mesmo que agora não chores, eu lembro-me de Ti a chorar. Também choravas com os olhos.
Esse retrato faz finca pé e não vai embora. Faço com que se sinta a mais, mas ele não tem tacto. Faz-se de convidado e diz que passa a noite em mim.

Sei que a Geografia não é o teu forte, mas, agora estou numa viela de Dili. É noite. Estou com a mochila às costas e cheio de cieiro. Longe dos meus, procuro a bússola de mim mesmo. Perdi-a, patego como sou, devo tê-la deixado em Jacarta.
O meu ponto cardeal não é o Norte nem o Sul. És Tu.
Agora é tarde. Não há mais transportes para chegar a Ti. Estão em greve, ao que parece!

Gostava de Te escrever uma carta. Gostava de Te dizer que estando com biliões de pessoas, sinto a falta de uma. Gostava de te dizer que, sendo o mesmo, sou outro.
É confuso, não é? Vê só do que Te livraste!

Sigo o caminho. Continuo só. De vez em quando, um ou outro amigo de circunstância, que me ensina palavrões num dialecto do interior de Timor. Dá para desanuviar.

Tinhas alguma razão. Dizias-me que só ia acreditar em Deus quando precisasse Dele. Continuo a não acreditar, mas gostava, sabes... Acho que me ia fazer bem encontrá-Lo por aí.
Não. Não ia haver hossanas para ninguém, lamento. Muito menos trinta Pai Nossos cantados.
Acho que Ele também passava bem sem isso. Canto muito mal.

Teríamos uma conversa informal, de homem para Deus, beberíamos vinho. Eu branco, Ele tinto. A "páginas tantas", aconselhar-me-ia a nunca desistir daquilo pelo qual estamos dispostos a morrer.
Faria um esforço para não chorar, mas lembrava-me que Ele sabia que estava a fingir e desatava aos soluços...
Passaria, então, a ser apenas, ligeiramente ateu. Um ateuzito de trazer por casa, portanto.

Estou a fazer as malas, agora. Vai tudo amarrotado. Os pesadelos que trouxe são os mesmos que levo. A viagem não valeu o dinheiro que paguei por ela. Se era para sofrer, podia, ao menos, ter sofrido de graça, mas...

Fez-me bem falar com Deus...

2 comentários:

icamila disse...

Ola, João!! Fantástico, o blog, adorei! Muitos parabéns!

divagarde disse...

Vou voltar para ler com calma. À noite, de preferência, que é quando a alma mais se me disponibiliza ao entendimento da escrita que nas linhas escritas se oculta.

Bom fim-de-semana.
Um beijo